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Cônego Amílcar Gabriel: uma vida de fé, dedicação ao próximo e compromisso com Nova Veneza

24 de agosto de 1919 – 7 de junho de 2007

A história do Cônego Amílcar Gabriel é marcada por uma profunda dedicação à Igreja Católica, pelo compromisso com o bem-estar das pessoas e por uma participação decisiva no desenvolvimento de Nova Veneza, em Santa Catarina. Durante mais de cinco décadas, sua presença esteve ligada à vida religiosa, social e comunitária do município, deixando contribuições que ultrapassaram os limites da paróquia e passaram a integrar a própria história da cidade.

Amílcar Gabriel nasceu em 24 de agosto de 1919, na localidade de Morro Albino, em Criciúma, Santa Catarina. Filho de Benjamin Gabriel e Romina Piazza, descendentes de imigrantes italianos, cresceu em uma família que cultivava os valores da fé católica, do trabalho e da vida comunitária.

Quando tinha apenas três anos de idade, mudou-se com a família para Meleiro, no vale do Araranguá, em busca de melhores condições de vida. Foi nesse ambiente simples, de fortes tradições religiosas, que começou a desenvolver sua vocação sacerdotal e o desejo de dedicar a vida ao serviço de Deus e das pessoas.

Em 1935, aos 16 anos, ingressou no Seminário Menor de Azambuja, em Brusque, onde iniciou sua formação religiosa e realizou os estudos clássicos. Em 1940, prosseguiu com os cursos superiores de Filosofia e Teologia, aprofundando sua preparação doutrinária e eclesiástica. Durante os anos de formação, destacou-se pela dedicação aos estudos, pela piedade pessoal e pela determinação em seguir o sacerdócio.

Sua ordenação aconteceu em 29 de dezembro de 1946, durante o encerramento de um Congresso Eucarístico Regional realizado em Criciúma. A ocasião representou um marco especial para a região, pois Amílcar Gabriel tornou-se o primeiro sacerdote originário do vale do Araranguá.

Poucos dias depois, em 5 de janeiro de 1947, celebrou sua primeira missa em Turvo, localidade que, naquela época, pertencia a Araranguá. Iniciava-se, assim, uma trajetória sacerdotal que seria marcada pela proximidade com as comunidades, pela atenção às necessidades humanas e pelo trabalho constante em favor do bem comum.

Nos primeiros anos de ministério, exerceu atividades pastorais no sul catarinense, acompanhando as comunidades que lhe foram confiadas e adquirindo a experiência que levaria para a missão mais duradoura de sua vida.

Foi em Nova Veneza que sua história encontraria um vínculo definitivo com a comunidade

Em 1953, Padre Amílcar Gabriel chegou ao município para assumir a Paróquia São Marcos. Sua posse como pároco aconteceu em 25 de abril daquele ano, justamente no dia de São Marcos, padroeiro local.

A partir daquele momento, passou a dedicar sua vida à comunidade neoveneziana. Foram 54 anos de atuação contínua, durante os quais se tornou muito mais do que uma liderança religiosa. Foi conselheiro, orientador espiritual, incentivador de iniciativas comunitárias e uma presença constante na vida das famílias.

À frente da Paróquia São Marcos, empenhou-se em fortalecer a fé e os valores cristãos. Reorganizou pastorais, incentivou a formação de comunidades nas capelas do interior, consolidou movimentos de leigos e estimulou vocações sacerdotais e religiosas. Também contribuiu para preservar as tradições culturais de origem italiana, profundamente ligadas à identidade de Nova Veneza.

Participava das festividades religiosas, celebrava casamentos e batizados e acompanhava as famílias nos momentos de alegria e dificuldade. Sua maneira simples e acolhedora de se relacionar com as pessoas fez com que fosse visto por muitos como um verdadeiro pai da comunidade, alguém a quem se podia recorrer em busca de orientação, apoio e uma palavra de conforto.

Seu cuidado também se estendia às estruturas da paróquia. Durante seu ministério, promoveu reformas e ampliações na Igreja Matriz São Marcos e em capelas da região, procurando oferecer espaços adequados para as celebrações, os encontros e a convivência comunitária.

Para Padre Amílcar, entretanto, a missão sacerdotal não se restringia às atividades religiosas. Ele compreendia que a fé também deveria se manifestar por meio de ações concretas capazes de melhorar a vida da população.

Essa visão fez dele uma importante liderança no desenvolvimento de Nova Veneza, especialmente nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e organização comunitária.

Uma de suas contribuições mais significativas foi a participação no movimento de emancipação política de Nova Veneza

Na época, a localidade ainda era distrito de Criciúma. Padre Amílcar envolveu-se ativamente nas articulações em favor da autonomia político-administrativa, mobilizando moradores e dialogando com autoridades. Sua liderança e influência contribuíram para a conquista da emancipação, ocorrida em 21 de junho de 1958.

A criação do município representou um passo fundamental para o desenvolvimento local, e o sacerdote passou a ser reconhecido como um dos grandes incentivadores dessa conquista histórica.

Na área da saúde, teve participação expressiva no fortalecimento do Hospital São Marcos. Preocupado com as dificuldades enfrentadas pela população para receber atendimento médico, trabalhou na mobilização de pessoas e recursos para melhorar as instalações e a organização da instituição.

Entre suas iniciativas, destacou-se o convite feito à congregação das irmãs Beneditinas para que se estabelecesse em Nova Veneza e assumisse a administração hospitalar. A atuação das religiosas contribuiu para consolidar o hospital como uma referência de atendimento humanizado, beneficiando diferentes gerações de moradores.

A educação também esteve entre suas prioridades. Convencido de que a formação de crianças e jovens era indispensável ao futuro da comunidade, apoiou a criação de escolas e colaborou com iniciativas destinadas a melhorar o ensino no município.

Empenhou-se em trazer ordens religiosas dedicadas à educação e incentivou o surgimento de uma escola de orientação católica vinculada à paróquia, ajudando a suprir necessidades educacionais existentes na região em meados do século XX.

Sua contribuição nessa área esteve associada à valorização do conhecimento, da formação moral e da ampliação das oportunidades para as novas gerações.

Outro capítulo importante de sua trajetória foi o esforço pela eletrificação de Nova Veneza.

Durante a década de 1950, quando muitas localidades ainda não contavam com energia elétrica, Padre Amílcar articulou-se com autoridades governamentais e empresas do setor para viabilizar a chegada da eletricidade à cidade e às comunidades próximas.

A iniciativa representou um avanço significativo para a população. A energia elétrica trouxe melhorias ao cotidiano das famílias, às escolas, ao hospital e aos estabelecimentos comerciais, além de favorecer o surgimento de pequenas indústrias e impulsionar o desenvolvimento econômico local.

Essas realizações revelam uma característica marcante de seu ministério: a capacidade de reunir pessoas, construir diálogos e transformar necessidades coletivas em iniciativas concretas.

Mesmo diante das responsabilidades e do reconhecimento que conquistou, Padre Amílcar preservou uma postura simples e humilde. Sua atuação era orientada pelo serviço ao próximo, pela solidariedade e pela preocupação com as pessoas mais necessitadas.

Ao longo dos anos, envolveu-se na organização de obras de caridade e fez da paróquia um importante espaço de apoio às iniciativas sociais. Sua liderança aproximava a Igreja das necessidades da população, fortalecendo os vínculos entre a vida religiosa e o desenvolvimento comunitário.

Pelos relevantes serviços prestados, recebeu da Igreja Católica o título honorífico de Cônego, reconhecimento de sua dedicação e de sua longa trajetória sacerdotal.

Também recebeu homenagens de autoridades públicas e instituições regionais, incluindo títulos de Cidadão Honorário e menções honrosas. A Câmara Municipal de Nova Veneza esteve entre as instituições que reconheceram sua contribuição para a construção e o fortalecimento do município.

Em 1996, a comunidade neoveneziana celebrou seus 50 anos de sacerdócio, o jubileu de ouro. A data foi marcada por missas solenes, eventos comunitários, homenagens e depoimentos que expressavam o respeito e o carinho conquistados ao longo de sua caminhada.

Naquele mesmo ano, foi lançado um livro de relatos biográficos sobre sua vida e sua obra, compilado pelo historiador Mário Belolli. A publicação reuniu memórias e registros de sua atuação, contribuindo para preservar sua importância na história regional.

Diante das homenagens recebidas, Cônego Amílcar mantinha a humildade que sempre o caracterizou. Costumava atribuir suas realizações à fé e à colaboração da comunidade, ressaltando que tudo havia sido feito “pela graça de Deus e com o apoio do povo”.

Essa maneira de reconhecer a participação das pessoas traduzia seu entendimento de que as conquistas comunitárias eram resultado do esforço coletivo.

Com o passar das décadas, sua presença tornou-se parte da identidade de Nova Veneza. Diferentes gerações cresceram acompanhando seu trabalho, participando das celebrações que conduzia e testemunhando sua dedicação à cidade.

Em 7 de junho de 2007, aos 87 anos, Cônego Amílcar Gabriel faleceu, encerrando uma trajetória de 60 anos de sacerdócio, dos quais 54 foram dedicados à Paróquia São Marcos.

Sua despedida foi marcada por profunda comoção. Uma multidão compareceu ao velório e à missa de corpo presente, realizados na Igreja Matriz São Marcos, para prestar suas últimas homenagens ao sacerdote que havia acompanhado tantas etapas da vida da comunidade.

Seu sepultamento aconteceu no Cemitério Municipal de Nova Veneza. A sepultura tornou-se um espaço de lembrança e reverência, recebendo placas e mensagens de agradecimento. Fiéis passaram a visitar seu jazigo para rezar e recordar sua trajetória, mantendo vivo o vínculo de respeito e gratidão construído ao longo dos anos.

O reconhecimento por sua história permaneceu presente no município. A praça localizada junto à Igreja Matriz recebeu o nome de Praça Cônego Amílcar Gabriel, perpetuando sua memória em um dos espaços mais representativos da cidade.

Em 2019, por ocasião do centenário de seu nascimento, Nova Veneza voltou a homenageá-lo com missas comemorativas, exposições fotográficas e a inauguração de uma placa alusiva à data. As celebrações reafirmaram a importância de sua contribuição para a história religiosa e comunitária local.

O legado do Cônego Amílcar Gabriel permanece nas instituições que ajudou a fortalecer, nas melhorias que incentivou, nas comunidades que acompanhou e nas lembranças preservadas por aqueles que conviveram com ele.

Sua atuação na emancipação política, no desenvolvimento do Hospital São Marcos, na educação, na eletrificação e na organização da vida religiosa demonstra a amplitude de seu compromisso com Nova Veneza.

Mais do que as realizações materiais, deixou um exemplo de liderança exercida com humildade, fé, responsabilidade e dedicação às pessoas.

Para os moradores que o conheceram, sua memória permanece ligada à figura de um sacerdote acolhedor, presente nos momentos importantes das famílias e sempre atento às necessidades da comunidade. Para as novas gerações, sua história representa um testemunho de como o trabalho perseverante e a união de esforços podem contribuir para transformar uma cidade.

Cônego Amílcar Gabriel dedicou sua existência à Igreja, às pessoas e ao desenvolvimento de Nova Veneza. Sua história tornou-se parte da história do município, e sua memória segue preservada como símbolo de fé, solidariedade, compromisso comunitário e serviço ao próximo.

Uma frase que costumava repetir resume a humildade com que reconhecia tudo o que realizou ao longo da vida:

“Pela graça de Deus e com o apoio do povo.”

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